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Entre o colo e a queda: o eco dos primeiros vínculos no amor adulto (Teoria do Apego)
2026-05-21     Psicanálise    Profa. Ms. Giovanna L. Ávila CRP14/083645

          A teoria do apego ajuda a compreender como aprendemos, muito cedo, a nos vincular emocionalmente e como essas primeiras gramáticas do afeto continuam reaparecendo na vida adulta, sobretudo nas relações amorosas. Ao longo desta série, os principais estilos de apego — seguro, ansioso, evitativo e temeroso — serão percorridos não como rótulos prontos, mas como modos de organizar vínculo, medo, defesa e sofrimento. A proposta é mostrar como cada padrão se manifesta na experiência concreta, quais dores costuma produzir e de que maneira o trabalho psicoterapêutico pode abrir caminho para relações mais estáveis, menos reativas e emocionalmente mais consistentes.

          Escrever sobre apego exige começar por uma recusa: a de tratar a vida amorosa adulta como se ela nascesse apenas do encontro entre duas pessoas no presente. A teoria do apego se tornou muito popular nos últimos anos, mas sua força real não está em oferecer rótulos rápidos para relações difíceis. Sua força está em sustentar uma pergunta decisiva: de que maneira os primeiros vínculos continuam vivos na forma como alguém ama, teme, se aproxima, se defende, pede, exige, suporta e se desorganiza diante do outro?

         A formulação clássica de John Bowlby mudou de forma profunda o modo de pensar o desenvolvimento emocional ao afirmar que o vínculo inicial com as figuras de cuidado não é um detalhe periférico da infância, mas uma condição estruturante da vida psíquica. O bebê humano nasce em estado de desamparo radical. Não se regula sozinho, não interpreta sozinho o que sente, não organiza por conta própria o excesso de estímulos, a fome, a ausência, o medo e a excitação. Isso significa que a relação com quem cuida não serve apenas para garantir sobrevivência biológica. Ela participa diretamente da construção da experiência emocional, da tolerância à frustração, da capacidade de procurar ajuda e do modo como o sujeito aprenderá, mais tarde, a viver intimidade e separação (Bowlby, 1969/2002; Bowlby, 1973/2004).

         Quando Bowlby descreve a figura de apego como base segura e porto seguro, ele oferece duas imagens clínicas extremamente fecundas. A base segura é aquilo que permite à criança explorar o mundo sem que cada afastamento seja vivido como risco de aniquilação. O porto seguro é o lugar para onde ela retorna quando algo assusta, excede ou desorganiza. Essa circulação entre exploração e retorno, entre diferenciação e dependência, entre curiosidade e amparo, é uma das matrizes do desenvolvimento emocional saudável. Quando ela se estabelece de forma suficientemente boa, a criança aprende que pode se afastar sem perder o vínculo e pode precisar sem ser humilhada por isso. Quando falha de modo importante, essa gramática da relação tende a se deformar (Bowlby, 1988; Ainsworth et al., 1978).

         A teoria do apego é importante porque mostra que a experiência emocional precoce não desaparece simplesmente com o passar do tempo. Ela pode deixar marcas duradouras na forma como o sujeito organiza expectativas sobre o amor, o abandono, a confiança, a disponibilidade e a perda. Essas marcas não costumam sobreviver apenas como lembranças claras. Muitas vezes, persistem como modelos internos de funcionamento: formas relativamente estáveis de sentir a si mesmo, de perceber o outro e de antecipar o que o vínculo tende a fazer. Em termos simples, o sujeito vai aprendendo, muito cedo, se sua necessidade será tolerada, se o outro poderá ser procurado, se a proximidade oferece abrigo ou ameaça, se a ausência é suportável ou devastadora (Bowlby, 1973/2004; Mikulincer & Shaver, 2007).

          Essa é uma das razões pelas quais a vida amorosa adulta raramente é apenas um acontecimento do presente. O amor atual frequentemente reabre, reorganiza ou reencena experiências muito anteriores ligadas a dependência, reconhecimento, ciúme, espera, recusa, abandono, invasão e perda. Isso não significa que toda relação adulta seja mera repetição infantil. Significa, antes, que ninguém ama a partir do zero. Há sempre alguma história atuando no modo como se espera, se busca, se evita, se suporta ou se teme o encontro com o outro.

         Ao longo do desenvolvimento, essas experiências vão se consolidando em modelos de si e do outro. Esse ponto foi particularmente aprofundado por Bartholomew e Horowitz, que propuseram uma leitura do apego adulto organizada a partir de dois eixos: a imagem de si e a imagem do outro. Quando o sujeito constrói uma visão relativamente positiva de si e do outro, tende a haver maior possibilidade de confiança, proximidade e flexibilidade relacional. Quando a visão de si é negativa e a do outro é mais positiva, pode surgir uma busca ansiosa por confirmação. Quando a visão de si é mais positiva e a do outro é negativa, pode se fortalecer a defesa da autossuficiência e o rebaixamento da dependência. Quando ambas são negativas, a experiência relacional tende a carregar forte ambivalência, medo e desconfiança. Essa formulação ajudou a consolidar o modelo de quatro categorias do apego adulto: seguro, preocupado ou ansioso, evitativo ou desdenhoso, e temeroso (Bartholomew & Horowitz, 1991).

          É importante, porém, usar esses estilos como mapas, e não como sentenças identitárias. Na divulgação popular, tornou-se comum falar de apego como se cada pessoa pertencesse definitivamente a uma caixa estática. A literatura mais séria é mais prudente. Muitos autores preferem trabalhar também com dimensões, especialmente ansiedade e evitação, observando que os sujeitos podem variar em grau, contexto e momento de vida. Isso evita transformar a teoria em caricatura ou diagnóstico de internet. A utilidade clínica dos estilos depende justamente de não serem tratados como destinos fechados, mas como modos recorrentes de organizar vínculo, medo, expectativa e defesa (Fraley, 2019; Mikulincer & Shaver, 2007).

          Essa prudência é ainda mais importante porque a teoria do apego, sozinha, não explica tudo. Relações humanas não são constituídas apenas por experiências infantis de cuidado. Questões de gênero, poder, violência, classe, cultura, trauma, sexualidade, contexto social e estrutura psíquica também atravessam a vida amorosa. Apego ajuda a compreender muitas perspectivas, mas não deve ser transformado em teoria total do sofrimento relacional. Não explica sozinho por que certas pessoas exercem poder e controle de forma sistemática, por que algumas se mantêm em vínculos destrutivos ou por que determinados encontros se organizam em lógica abusiva. Para esses temas, é preciso articular o apego a outras lentes clínicas, sociais e políticas.

          Esse ponto ético é central. O uso vulgar da teoria do apego às vezes cai em dois erros opostos. O primeiro é romantizar o sofrimento, como se determinados padrões inseguros fossem sinal de profundidade amorosa. O segundo é usar a linguagem do apego para inocentar ou justificar dano real, como se uma história difícil absolvesse automaticamente qualquer conduta. Nem uma coisa nem outra. Sofrimento explica muito, mas não absolve tudo. Compreender a origem de uma defesa não apaga os efeitos que ela produz no outro.

          Ao mesmo tempo, também seria pobre usar a teoria de forma moralizante. Nem todo comportamento desorganizado é prova de perversidade. Nem toda oscilação afetiva é manipulação deliberada. Nem toda dificuldade de intimidade é recusa fria do laço. Uma clínica séria exige mais rigor. Exige distinguir sofrimento, defesa, repetição, atuação, dano e, quando for o caso, violência estruturada. Exige também não transformar toda contradição em patologia fechada. Em muitos casos, o que se vê são tentativas precárias de sobrevivência psíquica em sujeitos que aprenderam muito cedo que depender era arriscado, humilhante ou ameaçador.

          É aqui que a teoria do apego encontra, de forma fecunda, a tradição psicanalítica. Se as experiências primárias de cuidado participam da constituição do psiquismo, então falhas importantes nesse campo não deixam apenas “traumas” no sentido cotidiano do termo. Elas podem comprometer processos de simbolização, reconhecimento e diferenciação. Um bebê ou uma criança pequena depende do outro não apenas para ser alimentado e protegido, mas para ter seus estados brutos recebidos, nomeados e metabolizados. Quando isso falha de modo importante, parte da experiência pode permanecer pouco simbolizada, retornando depois em forma de repetição relacional, atuação, hipervigilância, retraimento ou colapso afetivo.

         A noção de repetição, aqui, é decisiva. O sujeito não repete o passado porque gosta de sofrer. Repete porque certas experiências não encontraram elaboração suficiente e insistem em retornar no presente, agora sob novas formas como Freud já indicava ao articular a lógica entre recordar, repetir e elaborar (Freud, 1914/2010). Às vezes repete escolhendo determinados tipos de vínculo. Às vezes repete ocupando certas posições. Às vezes repete produzindo no outro aquilo que um dia viveu passivamente. A repetição não é simples cópia do que ocorreu, mas atualização de uma gramática afetiva antiga que ainda não encontrou outro destino psíquico. Essa leitura, mais próxima da psicanálise relacional e da clínica do trauma, enriquece muito o uso da teoria do apego, porque impede que ela seja reduzida a classificação comportamental.

          Outra contribuição importante da literatura contemporânea é a noção de segurança adquirida, ou earned security. Essa ideia corrige um fatalismo frequente quando se fala em apego. Histórias precoces importam muito, mas não esgotam o destino do sujeito. Relações posteriores suficientemente boas, experiências reparadoras, vínculos confiáveis e psicoterapia podem produzir reorganizações reais no modo de viver proximidade, dependência e separação. Isso não acontece por milagre nem por insight isolado. Exige tempo, repetição, manejo da vergonha de precisar, elaboração da memória afetiva e construção de novas experiências de confiabilidade. Mas a possibilidade existe, e é uma das razões pelas quais a teoria do apego é clinicamente viva: ela ajuda a compreender tanto a origem do sofrimento quanto a possibilidade de transformação (Carnelley & Rowe, 2020; Theisen et al., 2024).

         Esse ponto é especialmente importante porque impede duas ilusões igualmente pobres. A primeira é a ilusão da sentença: “sou assim porque minha infância foi assim”. A segunda é a ilusão da superação rápida: “basta entender meu estilo de apego que tudo muda”. Nenhuma delas sustenta a complexidade do trabalho clínico. Apego não é destino, mas também não é hábito superficial. O que muda não muda rápido porque não está inscrito apenas em ideias conscientes. Está inscrito em memória afetiva, resposta corporal, expectativas implícitas e formas aprendidas de sobreviver ao vínculo.

         No fundo, é talvez por isso que a teoria do apego continua tão importante. Porque ela devolve densidade a uma verdade simples e difícil ao mesmo tempo: a forma como fomos recebidos nos começos da vida continua ecoando na forma como amamos, tememos, esperamos, nos defendemos e sofremos. Falar de apego, portanto, não é falar apenas da infância. É falar da persistência do desamparo, da necessidade, da esperança e do medo no coração dos vínculos adultos.

          Nos próximos capítulos, os diferentes estilos de apego serão percorridos não como personagens fixos, mas como gramáticas do vínculo. O apego temeroso virá primeiro, porque nele a contradição do amor aparece de forma particularmente nítida: precisa-se daquilo que também assusta. Só depois disso o apego seguro fará pleno sentido, não como idealização normativa, mas como horizonte clínico possível de um vínculo em que intimidade e diferença deixem de ser vividas como guerra.

Giovanna L. Ávila

 

Bibliografia

Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E., & Wall, S. (1978). *Patterns of attachment: A psychological study of the strange situation*. Hillsdale, NJ: Erlbaum.

Bartholomew, K., & Horowitz, L. M. (1991). Attachment styles among young adults: A test of a four-category model. *Journal of Personality and Social Psychology, 61*(2), 226–244.

Bowlby, J. (1988). *A secure base: Parent-child attachment and healthy human development*. New York: Basic Books.

Bowlby, J. (2002). *Apego e perda: Vol. 1. Apego* (edição brasileira). São Paulo: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1969).

Bowlby, J. (2004). *Apego e perda: Vol. 2. Separação: angústia e raiva* (edição brasileira). São Paulo: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1973).

Carnelley, K. B., & Rowe, A. C. (2020). Enhancing the broaden-and-build cycle of attachment security in adulthood: neural activations to daily life flourishing. *Current Opinion in Psychology, 25*, 125–129.

Fraley, R. C. (2019). A brief overview of adult attachment theory and research. Manuscrito de síntese teórica amplamente utilizado em ensino e pesquisa.

Freud, S. (1914/2010). Recordar, repetir e elaborar. In S. Freud, Obras completas (vol. X). São Paulo: Companhia das Letras.

Mikulincer, M., & Shaver, P. R. (2007). *Attachment in adulthood: Structure, dynamics, and change*. New York: Guilford Press.

Theisen, J. C., et al. (2024). The relationship between attachment needs, earned secure therapeutic attachment and outcome in adult psychotherapy. *Psychotherapy Research*.


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